Belo Horizonte: proteção ambiental e desenvolvimento estão de relações cortadas

Sou daquelas que saiu da faculdade com a bandeira ambientalista em riste.

Fiz estágio por um bom tempo na Promotoria de Meio Ambiente e lá o amor pela causa foi nascendo e crescendo.

Contudo, um dia caímos da cama e acordamos, porque o mundo aqui fora é mais áspero e menos colorido.

É com essa frustração que eu tenho visto hoje o direito ambiental. Essa bandeira é usada por conveniência de quem quer ser visto como o “politicamente correto”. Mas não dá para engolir essa aparência para sempre.

Belo Horizonte implantou a política de abolição das sacolinhas plásticas, mas em troca inseriu no mercado sacolinhas “menos agressivas” que nos são vendidas, ao invés de fornecidas como cortesia. Se isso afetou em alguma coisa o problema com o lixo, eu sinceramente tenho lá muitas dúvidas.

Só este ano Belo Horizonte perdeu cerca de 11 mil árvores, superando o número do ano passado que girou em torno dos 10 mil.

Para quem costumeiramente trafega pela Av. Cristiano Machado, em Belo Horizonte, foi autorizado o corte de cerca de 80% das árvores que adornavam a avenida.

Imagem das árvores derrubadas na Cristiano Machado

Segundo o Portal Estado de Minas:

Em defesa de uma cidade mais verde, moradores de bairros da Região Nordeste de Belo Horizonte afirmam que a situação é temporária, pois a pressão da comunidade é pelo plantio de pelo menos 1 mil árvores na área onde será construído o corredor para o transporte rápido por ônibus (BRT, na sigla em inglês).

A iniciativa é apenas uma das reações de grupos de cidadãos que não aceitam que o progresso atropele o meio ambiente. Só este ano, conforme o Estado de Minas mostrou na edição dessa segunda-feira, BH perdeu 11.322 árvores apenas nas ruas e avenidas da cidade. Mais de 10% desse desmatamento têm relação com as obras da Copa do Mundo de 2014, com a derrubada de 650 espécimes no estádio do Mineirão e 499 na Cristiano Machado, onde haverá o BRT […].

Mas o projeto do BRT na Capital não pára por aí. Ele também será implantado na Avenida Pedro I e na Avenida Antônio Carlos, esta última que perderá mais de 400 espécimes de árvores para dar lugar ao novo tipo de transporte.

Segundo o Portal do Estado de Minas, em outra matéria:

A Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) informou que a supressão de 136 árvores na Avenida Antônio Carlos teve licença concedida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Das 71 palmeiras que precisarão ser removidas, 52 serão transplantadas, porém, estudos estão sendo feitos para definir o melhor lugar para o replantio. Os 19 exemplares restantes serão suprimidos, já que “não apresentam boas condições estruturais que permitam o replantio”, como informa a Sudecap. Sessenta e cinco árvores de outras espécies também serão suprimidas na Antônio Carlos, mas, nesse caso, não foi exigida nenhuma medida compensatória.

Na Pedro I, 300 espécimes serão derrubadas, sendo que 100 já foram suprimidas. Nesse caso, há medida compensatória para 40 árvores cortadas em frente ao Pampulha Mall. Serão plantadas 204 mudas ao longo da obra. Também haverá supressão de 42 espécimes nas avenidas Montese e João Samaha e Rua Monte Castelo. Para essas árvores que deixarão de existir, serão plantadas outras 206 mudas. Por fim, 27 exemplares vão sair do Complexo Vilarinho em função da requalificação viária do local. A medida compensatória será plantar 118 novas árvores em locais que ainda serão definidos.

Isso para não falar também dos cortes que têm ocorrido nas regiões do Santo Agostinho e da Savassi, que com a polêmica obra da reforma da praça, cortou quase todo o verde que havia por lá.

Acontece que para o José das Couves que realiza uma poda na árvore que fica em sua calçada, os órgãos públicos responsáveis são acionados e esse cidadão responde por um processo administrativo, ou um inquérito civil, para apurar sua responsabilidade e fixar a forma de compensar o dano ao meio ambiente.

Quando ele então resolve cortar a árvore por qualquer motivo, o problema é maior, principalmente porque fica mais fácil enquadrar o crime ambiental.

Mas quando se trata do outro lado da moeda, existe um aval em prol do desenvolvimento econômico que “tudo pode”.

Não, não. Não pense que sou tão radical assim a ponto de defender qualquer plantinha ou micronascente de água.

Reconheço que a cidade cresce muito a cada dia e os espaços urbanos têm de se adequarem para melhorar a circulação e o convívio, mas não seria exagero atropelar tudo em prol desse argumento?

Sinceramente, nem sei se a legalidade dessas supressões e até a compensação ambiental estão sendo discutidos juridicamente, fiscalizados administrativamente ou se há alguma investigação por parte do Ministério Público de Minas Gerais.

Fato é que a compensação ambiental chega a ser, por vezes, uma perda de tempo. Fazer controle repressivo quando se trata de proteção ambiental é quase uma piada: para cada árvore suprimida, doa-se uns bocados de mudas de planta para sei lá onde, sem nenhuma garantia de que isso realmente compensará alguma coisa.

Os interesses deveriam ser harmonizados, mas nem a prefeitura e nem o cidadão como um todo está preocupado com isso. Como diziam Os Mutantes, “as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.

Capital exemplo de que paisagismo e desenvolvimento econômico e tecnológico não andam juntos, Belo Horizonte fica cada vez mais cinza.

Já são tão poucos ambientes agradáveis com verde que o mineiro está se desapegando.

Está se desapegando do verde, da motivação e da causa.

E eu estou me incluindo aqui. Sinto que pregar a proteção ambiental da forma como eu aprendi, da forma como eu fazia há um ano atrás, não dá mais.E ultimamente percebo que pregar a harmonia dos interesses também está sendo como gritar para o vento.

Ainda assim, eu continuo fazendo a minha parte, na esperança vaga de que a metáfora dos grãos de areia possa, um dia, ser sentida.

Esse é meu desabafo.

Fonte:

Cidadão de BH quer plantio em dobro de árvores derrubadas

Centenas de árvores estão condenadas à morte em BH

– A foto do Parque Municipal é minha mesmo. 😛

Anúncios

Sobre Laiane

é advogada militante e pesquisadora independente, especialista em Direito Empresarial pela PUC Minas.
Esse post foi publicado em Diversos e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s